Em períodos de crise como a que vivemos atualmente, é muito comum cortar os investimentos de marketing de forma indiscriminada. Assim lançamentos, projetos de desenvolvimento de produtos, pesquisas e verbas de publicidade, entre tantas outras iniciativas, são suspensas sob a justificativa da “contenção de despesas” até que haja algum sinal de melhora na economia.

Embora a medida possa parecer sensata em virtude do contexto de incertezas e poupe recursos valiosos no curto prazo, deixar de sustentar a marca ou monitorar as mudanças dos hábitos e necessidades de clientes e consumidores pode colocar em risco o desempenho (e até mesmo a sobrevivência) da empresa no longo prazo. A conclusão é de um estudo da Harvard Business School que analisou as iniciativas de marketing das empresas durante as principais crises econômicas dos EUA desde 1970.

Segundo a pesquisa, em vez de realizar cortes indiscriminados, as empresas que tiveram sucesso ao enfrentar as crises passaram a examinar com “uma lupa” o comportamento do mercado, aplicando um bisturi (e não um cutelo) no orçamento de marketing para ajustar estratégias, táticas e linhas de produtos em resposta às mudanças. Abaixo estão os principais pontos do artigo sobre o tema publicado originalmente na Harvard Business Review. Embora tenha como foco o mercado norte-americano, os exemplos e recomendações são plenamente válidos para o nosso momento atual.

Novo perfil do cliente/consumidor

O primeiro passo é entender os novos segmentos que surgem durante a crise ou recessão que, ao invés de se basearem no modelo tradicional demográfico (classe A/B acima de 40 anos, por exemplo) e de estilo de vida (“ecologicamente correto”), deve se concentrar na reação emocional do cliente/consumidor em relação ao clima econômico. Desse modo, eles podem ser divididos em quatro grupos:

Pé no freio: é o que se sente mais abalado e corta todos os gastos, eliminando, adiando, reduzindo ou substituindo o consumo;

Abalado, mas paciente: tem confiança no futuro, mas enquanto a situação não melhora no curto prazo tende a diminuir seus gastos, mas de forma menos acentuada que o pé no freio;

Situação tranquila: tem confiança em sua estabilidade financeira e mantém o ritmo de consumo, tendendo apenas a ser mais seletivo com o que compra;

Vive o presente: continua agindo como sempre e não se preocupa em poupar. Geralmente esse público é constituído de pessoas mais jovens e sua principal reação à crise é adiar compras de produtos de maior valor.

Independente do grupo ao qual pertence, o consumidor classifica produtos e serviços em quatro categorias para poder priorizar os gastos:

1) Artigos essenciais para a sobrevivência e bem estar;
2) “Agrado”: fonte de prazer e de compra imediata tida como justificável;
3) Artigos adiáveis: produtos necessários ou desejados cuja compra pode ser postergada;
4) Dispensáveis: artigos considerados desnecessários ou injustificáveis.

Em períodos de crise, produtos e serviços podem ser deslocados entre essas categorias, dependendo das prioridades regidas pela segmento do público, queda do orçamento doméstico e perspectivas futuras. O desafio do marketing consiste em analisar como os produtos da empresa se encaixam nessa nova perspectiva do consumidor e readequá-los às novas necessidades e expectativas.

Administre os investimentos de marketing

Suas oportunidades durante a crise vão depender muito do segmento ao qual pertencem seus principais clientes e de como esse público classifica seus produtos ou serviços. Durante uma recessão é mais importante que nunca lembrar que a clientela fiel é a principal (e permanente) fonte de caixa e crescimento orgânico. Nesse sentido, marketing não um opcional e sim um investimento necessário para manter e aumentar a receita perante esse público. É também o principal recurso para pesquisar e descobrir novos públicos.

Tendo a fidelidade dos clientes como foco fica mais fácil administrar a verba de marketing, eliminando as ações de baixo desempenho e rendimento, encerrando produtos que já vinham mal mesmo antes da crise e concentrando os recursos nas marcas de relevância para a clientela central.

Na segunda parte deste artigo, os autores do estudo de Harvard mostram como as empresas que adotaram essa estratégia e reforçaram a proposta central de suas marcas se fortaleceram nos períodos de crise, enquanto as que cortaram seus investimentos não sobreviveram.

 

Texto originalmente publicado no site Administradores, por Silvio Tanabe.